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O Lugar da Ética e da Auto-Regulação
na Identidade Profissional dos Jornalistas

2009
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian e FCT

“Este livro apresenta uma parte substancial da tese de doutoramento em Ciências da Comunicação defendida pelo autor em Janeiro de 2007, na Universidade do Minho, e cujo título é, precisamente, “O lugar da ética e da auto-regulação na identidade profissional dos jornalistas”.

Dada a natureza específica de uma publicação em livro, entendeu-se proceder a algumas naturais adaptações. Mais do que isso, e porque se tratava de um trabalho académico bastante extenso, optou-se por apresentar aqui apenas a segunda parte da obra – a que mais especificamente se debruça sobre as questões da ética e da deontologia jornalísticas, bem como da regulação desta actividade (e, muito em particular, da sua auto-regulação). De fora ficaram os dois capítulos iniciais – entretanto também reorganizados e publicados em livro1 –, que aqui se referem apenas para situar e contextualizar melhor o que a seguir poderá ler-se.

O primeiro fazia uma breve abordagem teórica da sociologia das profissões e dos diversos paradigmas que, ao longo das últimas décadas do século XX, foram sendo objecto de estudo e de debate. Indo além das doutrinas funcionalistas que, tradicionalmente, esgotavam a caracterização de uma profissão na inventariação de um conjunto de atributos ou ‘traços’ que obrigatoriamente haveria de se possuir, novas abordagens (decorrentes das perspectivas interaccionistas) chamaram a atenção mais para o processo de construção de uma profissão do que para o resultado. Com isso atribuíam uma especial importância e significado às estratégias de profissionalização prosseguidas pelos grupos ocupacionais, com vista a obterem esse estatuto. Mais ainda, uma corrente de estudos particularmente crítica da chamada “ideologia do profissionalismo” foi pondo em destaque a questão do poder como móbil das profissões, poder esse traduzido na apropriação, em regime de monopólio e com o aval do Estado, de um segmento fechado do mercado de trabalho, cujo acesso se controla e cujas regras de conduta se auto-regulam. Todos estes contributos teóricos – somados à verificação de recentes tendências no sentido de alguma desprofissionalização ou de proletarização das actividades do trabalho – desenharam um pano de fundo mais adequado à análise do projecto profissional dos jornalistas e das complexidades que amiúde o envolveram. Nesse capítulo inicial se sugeria, então, que mais do que o estudo estático das ‘profissões’ em si, valeria a pena analisar os processos de profissionalização em que historicamente se foram empenhando algumas ‘ocupações’, tendo em vista o seu reconhecimento social e a legitimação pública.

Disso mesmo tratava o segundo capítulo: de olhar para o percurso longo e nem sempre linear feito pelos jornalistas – em diversos tempos históricos, em diversas latitudes e em diferentes contextos sócio-culturais – com vista à ‘promoção’ do seu ofício ao estatuto de verdadeira profissão, em larga medida à imagem das profissões estabelecidas de acordo com o modelo do profissional liberal. Aí se passavam em revista os cenários de países europeus como a França, por um lado, e dos EUA, por outro, onde, de modo algo esquemático, podemos situar raízes das duas tradições mais fortes – a político-literária, associada ao modelo europeu, e a informativa, associada ao modelo anglo-americano – que acabaram por construir o moderno jornalismo. Uma atenção muito particular era, naturalmente, dedicada ao desenvolvimento do processo em Portugal, que teve também especificidades, decorrentes do seu contexto político e social. Aí se dava, afinal, conta de como este caminho dos jornalistas foi um processo difícil, contraditório, feito de avanços e recuos, de tensões e negociações permanentes, à medida de uma actividade cuja catalogação suscita ainda e sempre algumas polémicas.

Desenhado o enquadramento teórico do estudo das profissões e percorridas as etapas históricas essenciais de afirmação do ofício do jornalismo, pretendia-se, de seguida, mergulhar mais aprofundadamente na análise dos principais atributos associados ao profissionalismo – e, em particular, dos modos como os jornalistas se foram articulando com eles. E é aqui, precisamente, que começa este livro.

A componente empírica da tese de doutoramento debruça-se sobre o Provedor do Leitor enquanto instância auto-reguladora, procurando estudar as opiniões, relações e sentimentos dos jornalistas relativamente a tal figura. Com esse objectivo, foi conduzido um inquérito junto de jornalistas de três diários portugueses, cujas conclusões são discutidas em pormenor no trabalho académico. Dadas as características particulares deste livro – cujo objectivo essencial é proporcionar algum enquadramento e reflexão mais genéricos sobre a ética, a deontologia e a auto-regulação na actividade jornalística –, entendeu-se também prescindir dessa última parte, terminando o trabalho na inventariação dos principais mecanismos auto-reguladores da profissão. Em todo o caso, o estudo da figura do Provedor do Leitor (que, em Portugal, se alargou recentemente também ao Ouvinte e ao Telespectador) acaba por merecer um destaque especial."

1 FIDALGO, Joaquim (2007). O Jornalista em Construção. Porto: Porto Editora.

 

INDEX

Nota explicativa
7
Introdução
9

Capítulo 1: A especificidade dos principais “traços profissionais” no jornalismo
1. Os diferentes figurinos no associativismo
28
1.1. Entre a Ordem e o Sindicato
29
1.2. Prestígio social ou capacidade de reivindicação laboral?
32
1.3. Incluir os “profissionais”, excluir os “amadores”
37
2. Em demanda de um saber próprio
41
2.1. O jornalismo como forma de conhecimento
45
2.1.1. Os media como actores culturais
49
2.1.2. A ciência da “periodificação”
51
2.2. O jornalismo como disciplina autónoma
53
2.2.1. Para além da dicotomia teoria/prática
54
2.2.2. Entre qualificação e competência
58
2.2.3. Em favor de uma lógica de competência
61
2.2.4. Os “saberes de acção” no cerne do saber profissional
67
2.2.5. Uma nova atenção ao cliente
71
2.2.6. A alternativa da “prática reflexiva”
72
2.2.7. A emergência do paradigma noticioso
75
2.2.8. Como saber o que é, ou não é, notícia?
85
2.2.9. A especificidade do “produto-jornal”
90
2.3. A formação dos jornalistas
93
2.3.1. O dilema da titulação académica
94
2.3.2. A diversidade de opções curriculares
95
2.4. O estatuto do jornalista enquanto profissional especializado
96
2.4.1. Modos de legitimação
97
3. A responsabilidade e o ideal de serviço público
100
3.1. Entre o serviço público e o interesse privado
101
3.2. Pressão das fontes e pressão das audiências
105
3.3. A responsabilidade social dos media
107
3.3.1. A dupla lealdade do jornalista
109
3.3.2. O Estado, o Mercado – e a Sociedade
112
3.3.3. Liberdade “negativa” e liberdade “positiva”
114
3.3.4. Da regulação pública à regulação social
118
4. A exigência ética e deontológica
121
4.1. No princípio era a ética
121
4.2. Os caminhos diversos da deontologia
123
4.3. Dúvidas e hesitações do modelo português
126
5. Síntese conclusiva
129

Capítulo 2: A centralidade do desafio ético e deontológico
1. Ética, moral, deontologia: esclarecer conceitos
140
2. Os dilemas de sempre
143
2.1. Entre o pólo individual e o colectivo
144
2.2. Entre o enfoque deontológico e o teleológico
147
2.3. Entre convicções e responsabilidade
149
3. Os debates contemporâneos em ética
152
3.1. Ética deontológica, ou do dever moral
155
3.2. Ética consequencialista, ou da utilidade
160
3.3. Ética contratualista, ou do acordo
164
3.4. “Ética das virtudes”, ontem e hoje
169
3.4.1. Percurso interno e condições externas
175
3.4.2. Os neo-aristotélicos, de MacIntyre a Nussbaum
178
3.4.3. O complemento de uma “ética dos afectos”
183
4. Habermas e a ética do discurso
187
4.1. A teoria kantiana revista e reformulada
192
4.2. A força da razão, a importância da vontade
196
5. Em demanda da síntese ideal
199
6. Porquê ter um comportamento ético?
205
6.1. Antes das normas, os valores
206
6.2. A hipótese das “proto-normas universais”
209
6.3. A responsabilidade social dos media revisitada
217
7. Exigências e procedimentos do juízo ético
224
7.1. Dominar a regra dominante
225
7.2. Explicitar o processo de decisão ética
227
7.3. Formar-se também para a competência ética
230
8. Da ética à deontologia profissional
232
8.1. As dúvidas dos “mitos fundadores” do jornalismo
233
8.2. Modos de usar a deontologia
237
8.3. O “contrato social” como caminho de legitimação
244
8.4. Jornalistas responsáveis, jornalistas imputáveis
249
9. “Back to basics”, ou seja, “back to ethics”
251
10. Síntese conclusiva
257

 
Capítulo 3: Accountability e regulação da actividade jornalística  
1. A questão da responsibility
263
2. A questão da accountability
266
2.1. Em busca da quadratura do círculo?
268
2.2. Tipos e níveis de accountability
271
3. De que se fala quando se fala de regulação?
279
3.1. Regulação “centrada” ou “descentrada”
280
3.2. Regulação e “mercado livre das ideias”
283
3.3. Uma questão também moral
286
4. O lugar da hetero-regulação
290
4.1. Sistemas políticos e modelos mediáticos
292
4.2. Modos de intervenção do Estado
302
5. A auto-regulação: papel, vantagens e limites
308
5.1. O que a auto-regulação é…
311
5.2. … e o que a auto-regulação não é
314
5.3. Entre as boas intenções e a duvidosa eficácia
318
5.4. Sanções materiais ou morais?
320
5.5. O lugar do público
326
6. Instrumentos e mecanismos auto-reguladores
330
6.1. Conselho de Redacção
332
6.2. Livro de Estilo
334
6.3. Estatutos de Redacção/Códigos Internos
338
6.4. Código Deontológico
339
6.5. Conselho Deontológico
345
6.6. Conselho de Imprensa
347
6.7. Correio dos Leitores e Tribuna Pública
352
6.8. Crítica de Media / Metajornalismo
353
6.9. Provedor do Leitor / do Ouvinte / do Espectador
354
7. Síntese conclusiva
355
   
Capítulo 4: O Provedor do Leitor  
1. A questão da responsibility
359
1. Origem e enquadramento
360
2. Perfil e funções
364
3. As principais controvérsias
368
3.1. Sobre a independência
368
3.2. Sobre a autonomia
370
3.3. Sobre o papel
372
3.4. Sobre o(s) poder(es)
375
3.5. Sobre a eficácia e a utilidade
377
4. Vantagens, limitações e riscos
379
6. Síntese conclusiva
384
   
Conclusões e notas finais
387
Bibliografia
421
   
 
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