“Desistência escolar deve ser avaliada o mais cedo possível nas instituições de ensino”

O docente e investigador da Universidade Presbiteriana Mackenzie (Brasil), Ítalo Francisco Curcio, defendeu hoje na Universidade do Minho que é urgente as políticas de ensino públicas considerarem os fenómenos de exclusão escolar, insistindo na ideia de que este diagnóstico deve ser realizado individualmente e “o mais cedo possível nas instituições de ensino”.

Foi durante o Seminário “Desistência escolar: um problema que requer nova visão” que o orador realçou que a desistência escolar consiste numa preocupação que a academia não leva muito a sério, em que faltam estudos sobre o assunto e os que existem se baseiam nas práticas empíricas, que nem sempre são suficientes para ter uma ideia concreta do problema. Curcio discorda da terminologia aplicada no Brasil sobre o assunto – “evasão escolar” -, justificando com a agressividade da ideia, preferindo substituí-la por “desistência”, que não pressupõe qualquer desaparecimento, como acontece com “evasão”. Pegando em números do seu estudo, referiu que, no Brasil, no que concerne ao ensino à distância, se verificaram entre 2010 e 2012, 85% de desistências. Trata-se de uma situação que, para o investigador, é preocupante, uma vez que os índices são elevados tendo em conta o investimento nesta área. Em Portugal, por comparação, não existe o nível de desenvolvimento dos curso à distância, em que apenas se verificam 10% de desistências.

Para Ítalo Curcio, é necessária uma abordagem científica a este assunto de forma científica para observar as razões objetivas que levam à desistência escolar dos alunos, estudando o fenómeno não através daqueles que desistem, mas implementando inquéritos aos novos alunos, “despistando, desde logo, eventuais fatores de risco que os possam levar à saída prematura da academia”. Trata-se de uma situação que contribuirá para que exista uma racionalização de gastos, redistribuindo-os por diversos cursos. Seria idêntico ao que se verifica com uma empresa vitivinícola, considera: “é como os vinhos, há aqueles que são caros e medalhados, mas que são pouco procurados e vendidos. Depois há outro tipo de vinhos, mais correntes, que não são tão bons em termos de qualidade, mas que se vendem bastante e permitem que a empresa se mantenha”. É por isso que a sua proposta vai no sentido de promover o estudo do perfil dos estudantes, em que se procura analisar as razões que estiveram na base da desistência dos estudantes. Um desiderato que se deve atingir através de um diagnóstico individual, como na Medicina Clínica.

Tendo em conta o seu último estudo, em 2016, com 120 estudantes da sua universidade, o investigador concluiu os seguintes dados relativamente à motivação que presidiu à escolha do curso: sociedade em geral (44,2%); imposição da família (21,7%); tradição de uma determinada classe social (15,8%); e vontade própria (15%).

O investigador propõe, assim, que quando o aluno ingressa no ensino superior tenha que preencher um formulário exaustivo, para a elaboração do referido algoritmo, mesmo tendo presente que se trata de um processo moroso, que pode levar alguns anos a obter resultados.

Este evento foi organizado pelo CECS, em parceria com a Associação Portuguesa de Sistemas de Informação e a Associação Brasileira de Sistemas de Informação.

Texto: Vítor de Sousa & Fábio Ribeiro
Fotografia: Vítor de Sousa