Chamada de artigos: “Da Pós-memória à Escrita e Voz Reparativas: Contextos, Diálogos, Novos Horizontes”

Editores: Orquídea Ribeiro (UTAD; CECS), Sheila Khan (UTAD; CECS, Universidade do Minho) e Esser Jorge Silva (UTAD; CECS)

Nas últimas décadas o conceito de pós-memória tem reverberado em diversas publicações quer de carácter científico, quer literário e artístico. A questão que funcionou como uma pedra atirada ao charco imóvel e submerso do pós-Holocausto deveu-se a uma das vozes incansáveis nesse trabalho de alento e de diálogo com a memória, referimo-nos a Imre Kertész, à sua ousadia que nos inspira como legado de pensamento e de ação e à sua interrogação: “A quem pertence Auschwitz?” (Kertész apud Ribeiro, 2010: 14). A resposta a esta corajosa pergunta despoletou o que hoje nos permite avançar como uma tradição da pós-memória, isto é, o lugar do mapeamento analítico sobre como as heranças dos vários passados traumáticos podem representar uma força presencial tão forte e inexpugnável, que a transmissão intergeracional desses eventos pode constituir-se como uma experiência que não se manifestando de uma forma tangível assemelha-se a uma narrativa subjetiva que, não sendo daqueles que a viveram, funciona como plenamente sua (Hirsch 2008).

Em pleno século XXI, temos observado a expressão de uma urgência de compreender e de desconstruir mecanismos e velhas lógicas do passado colonial, imperial, esclavagista, entre outras experiências, que os ‘filhos’ e ‘netos’ herdeiros e testemunhas das mágoas, exílios, fraturas, contradições culturais e identitárias, almejam responder, refutar, equacionar e refletir sob outras perspetivas e novos horizontes. Com rigor, estas novas gerações erguem-se com uma elasticidade inequívoca e uma desobediência histórica perante repertórios de pensamento e de explanação da diversidade humana que denotam um grande desgaste e opacidade em explicar com justiça a imposição do passado no presente. Como observa António Sousa Ribeiro: “o sujeito da pós-memória é um protagonista ativo e,…, põe, literalmente, em cena um conjunto de representações do passado que não se limitou a receber, antes reconstrói e reelabora no âmbito de um processo de confrontação e negociação intergeracional” (2021, p.11).

Com verdade, o ‘sujeito da pós-memória’ vem alcançando patamares que ultrapassam os espaços da memória familiar, doméstica e íntima. Partindo de uma consciência histórica, este e outros sujeitos da diversidade humana confrontam também a arena pública, os discursos políticos, as dimensões sociais e culturais de uma forma nacional e transnacional. O movimento do Black lives matter é deste dever cívico de pós-memória um exemplo inspirador.

Este é o tempo do diálogo entre pós-memória, reparação e pedagogia por uma cidadania fincada no sentido de fraternidade histórica e global. Conscientes deste dever cívico que requer uma cidadania ativa e inclusiva, este número temático pretende acolher trabalhos que possam criticamente analisar, mapear e abordar o companheirismo entre memória, pós-memória e escrita reparativa (reparative writing) partindo de uma postura interdisciplinar. Nesse sentido, as propostas podem incidir sobre os seguintes tópicos:

– Pós-memória: Novas conceptualizações e desafios;
– Pós-memória vs. legados de colonialidade e de racialização;
– Arte e pós-memória: desconstruindo velhas narrativas de supremacia ocidental;
– O sujeito do reparative writing e o seu papel na pós-memória;
– Reparações históricas: novos desafios a partir da artes plásticas;
– Pós-memória e os seus contextos geopolíticos;
– A quem pertence a pós-memória?
– Pós-memória e pós-colonialismo;
– Cinema, teatro e documentário na pós-memória;
– O mundo na pós-memória, a pós-memória no mundo;
– Reparative writing, remembering e esquecimento;

Com revisão dupla por pares [double peer-review].

Datas importantes:

Data limite de submissão do artigo: 20 junho 2022

Notificação das decisões de aceitação: 10 de setembro 2022

Data de publicação da revista: 15 outubro 2022

Mais informações, aqui.

[Publicado: 08-03-2022]