[NOVO PRAZO] Comunicação e Sociedade | Chamada de trabalhos | Reparações históricas: Desestabilizando construções do passado colonial

Editores:  Vítor de Sousa (CECS, Universidade do Minho, Portugal), Sheila Khan (CECS, Universidade do Minho, Portugal) e Pedro Schacht Pereira (Universidade Estadual do Ohio, EUA)

A contestação ao etnocentrismo pela crítica pós-colonial, entre outras consequências, tem colocado em causa vários panegíricos de memória no espaço público. Questionam-se hoje, por isso, conceitos que tinham por missão conferir estabilidade ao mundo social, e que cada vez mais vão ficando obsoletos. Neste caso concreto, está a ideia de museu e outras manifestações no espaço público, como é o caso da estatuária. Para além disso, assuntos considerados fraturantes, como são os casos do racismo sistémico, a sobrevivência de velhas lógicas coloniais de racialização e de vigilância racial, e as lutas pela igualdade de género, vão somando pontos contra o statu quo.

O estudo do passado serve como postura ética, moral e cívica de chamar para o plano da reflexão a permanência de antigas lógicas de colonialidade que permeiam os contextos sociais, políticos, históricos e culturais atuais. Percebemos pela experiência da globalização que o mundo contemporâneo é interdependente, e que a globalização, mesmo com todas as críticas que lhe estão associadas, permite outros modos de relacionamento, sustentados por exemplo numa lógica alter-globalista (Hardt & Negri, 2019). Nesse sentido, é relevante destacar neste olhar o argumento de que o mundo não é estático, nem historicamente homogéneo. O pensamento da modernidade ocidental sustentou a sua ideologia, através da hegemonia, violência, racialização e vigilância racial praticadas, nesta grande premissa: aplanar o mundo da diversidade humana à luz de critérios que excluíam logo à partida todos aqueles que não estavam enquadrados na grande narrativa e gramática de progresso, civilização e desenvolvimento ocidentais. Esta rasura histórica e ontológica condenou ao atraso milhares e milhares de seres humanos. Nenhuma latitude do mundo escapou a esta praxis, com a modernidade ocidental a ser tentacular e ágil nos seus mecanismos e dispositivos de dominação, apropriação e de regulação.

O confronto com o sistema colonial até ao pós-colonialismo foi um caminho duro, magoado e tortuoso e, por isso, exige um exercício de dever de memória coletivo. Para compreendermos hoje os legados dessa colonialidade moderna é relevante colocar no cerne do debate académico e civil as múltiplas vozes e as narrativas, que ajudam a contribuir para um mapeamento mais profundo e compreensivo dos mecanismos do passado colonial ainda ativos na nossa contemporaneidade. As memórias, as narrativas, os manifestos, os ativismos sociais e os debates em torno do reconhecimento e da reparação histórica, espelhados em processos de comunicação pública e mediática, transformaram-se, do ponto de vista cultural e político, num terreno fértil e num compromisso de introspeção histórica, onde se travam combates desafiantes pela construção de uma narrativa mais justa, equitativa e reparadora.

Este volume temático da Comunicação e Sociedade debruça-se sobre a riqueza interdisciplinar comprometida com o diálogo atento e inteligente entre os legados de colonialidade e os processos atuais de reparação histórica presentes nas várias dimensões da historicidade humana. Com esta abordagem, pretende-se lançar um convite a académicos de vários pontos do globo a acolherem este desafio tão urgente e necessário para a memória das gerações futuras e para a própria problematização dos fenómenos comunicacionais.

As propostas de artigos devem incidir sobre um ou mais dos seguintes tópicos:

– Legados da colonialidade. Mapeamentos novos sobre processos de racialização e vigilância racial;

– Da colonialidade como oposição à interculturalidade;

– O luso-tropicalismo e as suas repercussões na atualidade na sociedade portuguesa;

– Descolonização de museus, estátuas e outros monumentos públicos;

– Fetichismo e abolicionismo;

– Arte, memória e literaturas pós-coloniais;

– O papel da pós-memória como dever de memória;

– Reparação histórica. Memória, escravatura e raça;

– Reparação histórica. Genética humanista e raça;

– Black Lives Matter como movimento reparador;

– Artivismo curatorial: como é que grupos ou indivíduos organizados podem oferecer narrativas tendentes a reinterpretar a estatuária pública colonial e outros equipamentos?

– Redes digitais e dinâmicas interculturais;

– Digitalização de culturas e artes;

– Confrontos políticos no espaço mediático: Nacionalismo e populismo vs. reparação histórica;

– Novas ferramentas de colonialidade: Big Data e Algoritmos;

– Discursos mediáticos, memória e transformação.

 

DATAS IMPORTANTES

Data limite de submissão: 18 de novembro de 2021 2 de dezembro de 2021

Notificação das decisões de aceitação: 21 de janeiro de 2022

Data limite para envio da versão completa e traduzida: 18 março de 2022

Data de publicação da revista: junho de 2022

 

LÍNGUA

Os artigos podem ser submetidos em Inglês ou Português. Findo o processo de avaliação por pares, os autores dos artigos selecionados para publicação deverão assegurar a tradução do seu artigo para Português ou Inglês, respetivamente, cabendo aos editores a decisão final sobre a publicação do mesmo.

EDIÇÃO E SUBMISSÃO

Comunicação e Sociedade é uma revista académica de acesso livre, funcionando de acordo com exigentes padrões do sistema de revisão de pares e opera num processo de dupla revisão cega. Cada trabalho submetido será distribuído a dois revisores previamente convidados a avaliá-lo, de acordo com a qualidade académica, originalidade e relevância para os objetivos e âmbito da temática desta edição da revista.

Os originais deverão ser submetidos através do website da revista. Se está a aceder à Comunicação e Sociedade pela primeira vez, deve registar-se para poder submeter o seu artigo (indicações para se registar aqui.

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Para mais informações, contactar: comunicacaoesociedade@ics.uminho.pt

 

Referências

Hardt, M. & Negri, A. (2019). Empire, twenty years on. New Left Review, 120, 67-92.

[Publicado: 22-07-2021 | Alterado: 17-11-2021]