A Revista Lusófona de Estudos Culturais / Lusophone Journal of Cultural Studies (e-ISSN: 2183-0886 | ISSN: 2184-0458) é uma revista temática da área dos Estudos Culturais. Publicada desde 2013 no sistema OJS, esta revista tem um rigoroso sistema de arbitragem científica e é publicada em português e em inglês duas vezes por ano. De 2013 a 2016, foi publicada pela Universidade do Minho e Aveiro, em conjugação com o Programa Doutoral em Estudos Culturais. Em 2017, passou a ser publicada, exclusivamente, pelo Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. O conselho editorial da Revista Lusófona de Estudos Culturais / Lusophone Journal of Cultural Studies integra reputados especialistas dos Estudos Culturais, de diversos pontos do mundo.
Ece Canlı & Pedro Vieira de Oliveira
Vol. 12 (1) 2025 | CECS | UMinho
ISSN:2184-0458
A vigilância emerge como uma das questões mais controversas do século XXI, nos domínios ético, sociopolítico, jurídico e tecnológico. A sua persistente relevância nos média e na teoria crítica não só tem alimentado longos debates nos campos dos novos média e dos estudos dos média, como também impulsionado a formação de novos domínios académicos, por exemplo os estudos da vigilância (Ball et al., 2012; Monahan & Wood, 2018), assim como géneros mais experimentais como a arte de vigilância, que reflete e refrata lógicas de controlo — também conhecida como “artveillance” (Brighenti, 2010; Monahan, 2017). As narrativas dominantes, sejam governamentais ou corporativas, tendem a enquadrar as tecnologias de vigilância numa perspetiva tecno-humanista. Celebram o seu potencial para agilizar experiências de consumo no comércio, otimizar o tráfego e as infraestruturas urbanas, aumentar a produtividade no trabalho, melhorar a segurança pública e prevenir o crime. No entanto, esta visão utópica obscurece as profundas assimetrias que tais tecnologias perpetuam.(…)Corpos deixam de ser apenas observados; passam a ser escaneados, extraídos, indexados e transformados em pontos de dados dentro de uma lógica tecnopolítica que se alimenta da classificação e da prescrição. Este poder preemptivo, atribuído maioritariamente pela Europa, Israel e os Estados Unidos à tarefa da medição, não se limita apenas a aplicações instrumentais com scanners, leitores, cartões e outras tecnologias que “governam a mobilidade” (Amoore, 2006). Manifesta-se também em acordos sociais e coletivos mais amplos sobre categorias e o direito ao pertencimento. Assim, estas tecnologias, desenvolvidas e implementadas em grande parte no chamado Norte Global, expandem as fronteiras para muito além de seu delineamento físico, governando não só a mobilidade, mas também a possibilidade da sua existência no chamado Sul Global.